20.4.07

Do Fingimento

Como vocês podem ver pela hora da minha postagem, fui invadido mais uma vez pela incontinência criativa que de vez em quando me arrasa. Não é inspiração... É incontinência mesmo. Os pensamentos me escorrem de tal maneira que formam um arco-reflexo. Acreditem, meu cérebro não participa de nada disso aqui.

Esses dias reparei em um detalhe que para mim será um divisor de águas em minha vida. E me perdoem o texto voltado somente para mim, mas se faz necessário. Percebi que a diferenciação da vida de uma pessoa está no fingimento. Desenvolvo: enquanto você não sentir natural estar fingindo algo que você não é, você ainda não cresceu o suficiente, meu amigo!

A etimologia de fingir é "modelar na argila, dar forma a qualquer substância plástica, esculpir, dar feição a, reproduzir os traços de, representar, imaginar, fingir, inventar". Ou seja, quando você está fingindo você está criando uma representação de uma coisa irreal em uma coisa real. Você simplesmente transfere a realidade que você queria que existisse, e por isso irreal, a alguma coisa que existe, o seu real modo de ser. O fingir é um ardil tão perfeito por isso: você engana com uma coisa que já existe, só não existe naquele determinado momento.

Nós temos que fingir constantemente uma posição que nos é imposta pela sociedade. Em diferentes níveis de clichê. Você pode ser o gentleman, o Lancelot em pessoa. Para isso basta você engolir qualquer coisa de ruim que te façam, e sair da situação com ar de superior. Isso é fingir... Você finge uma força que não tem para fingir ser uma pessoa melhor do que você é. Enquanto isso se consome por dentro, entre inúmeras dúvidas, amarguras e incertezas. Ou você pode ser o festeiro: aquele cara que leva a vida como uma festa, que tem uma irritante falta de preocupação com tudo, que parecer ter criado um mundo em que o calendário funciona sextas, sábados e domingos. Domingos não... Afinal, tem que haver um dia de descanso, né?! ;-)

O fingimento é tão importante que sem ele nós não conviveríamos. Como você poderia agüentar aquele chato que se senta ao seu lado todos os dias? Como você pode suportá-lo? Você é uma pessoa criada em uma tradicional família cristã, não pode machucar os sentimentos de ninguém! Portanto você liga o piloto automático do ser humano... o fingimento.

"Não há bônus sem ônus". Essa máxima é extraordinária. Do mesmo modo que o fingir leva a um estado letárgico, sendo remédio eficaz para qualquer coisa que não lhe agrade, tem suas contra-indicações e seus efeitos colaterais. Só não há bula... Isso aí você terá que redigir a sua própria, pois existe uma dosagem para cada paciente.

Quem finge em excesso corre o risco de perder a própria identidade, de se perder no meio de tantas versões de si mesmo. Quem finge de menos corre o risco de não viver até entender que finge de menos. Quem finge de menos sofre preconceito, é visto como mau humorado, como ranzinza. Aí está a questão: todos somos ranzinzas! Metade das coisas que gostamos são "gostadas" só para agradar outra pessoa, ou ao menos não contrariá-la. Chega pra você o crítico de arte mais respeitado no país e pergunta "Gosta daquele quadro?". Se você já for grande, tanto vai gostar quanto saber informações detalhadas sobre o pintor. Você será o fingidor prevenido... Aquele que sai de casa com umas 5 versões de si mesmo. Se você for uma pessoa importante (mais importante que o crítico), poderá dizer "Aquele quadro é uma porcaria!". Rapidamente o crítico lhe emendará e falará "Realmente... Farei uma crítica detonando o pintor.". Agora, se você for um Zé Ninguém e disser pro crítico que não gosta, a resposta será "Isso porque você é um idiota...".

Perceberam o fingimento? Não só seu, mas também do crítico, também do cara importante, e também do pintor, que precisa fingir genialidade para se sobressair. O mundo, crianças, é regido pelo FIN-GI-MEN-TO!Para quê magoar alguém se você pode somente fingir? Finja que está tudo bem... Que ele fingirá que está tudo bem. E acaba que o fingimento fica tão real com o tempo, que se torna realidade.

De minha parte faço um manifesto: apoio o fingimento! Sem ele nós não teríamos nos suportado no mesmo mundo por tanto tempo. Nós teríamos nos matado uns aos outros. Torço para, um dia quem sabe, conhecer alguém com que eu não precise fingir nada. Torço para um dia eu saber quem realmente sou. Isso não pode ser feito por você mesmo, isso é uma descoberta, isso é uma experiência social. Quando me descobrir é capaz de nem eu mesmo me agüentar. Aí eu finjo que gosto de mim mesmo, e está tudo bem...



Por trás dessa camada densa de mentiras, ainda deve existir algo de verdadeiro.

28.9.06

Nowhere Man

Sempre meus posts tem alguma coisa a ver com música, quem ler esse blog pode perceber. Por que será? Acho que porquê consigo encontrar músicas para expressar qualquer coisa que sinto, consigo materializar no imaterial, a própria música.

Minha banda preferida, por banda digo conjunto de músicos, são o Beatles. Depois de passada a fase do iê-iê-iê eles conseguiram gravar músicas que apesar de curtas e populares têm uma carga de sentimento inigualável. É impressionante a poesia intrínseca para quem vê as letras com um pouco mais de atenção.

Hey Jude, A day in the life, Penny Lane, Michelle, Eleanor Rigby, In My Life, Something, e várias outras canções fazem parte do meu repertório predileto dos Beatles, mas uma outra música se destaca pelo que eu creio que não está escrito. A letra foi escrita por John Lennon, apesar de ser creditada para a dupla Lennon / McCartney. Chama-se Nowhere Man e é a síntese de um homem que não tem projetos, opiniões, nem ao mesmo rumo. Quantos de nós já se sentiu assim, perdido no mundo, sem a quem recorrer ou buscar, sem norte ou sem destino... Aqui, porém, a coisa é um pouco diferente... A letra dos Beatles se refere à pessoa que simplesmente vive alheia ao mundo, que simplesmente não se importa.

É mais fácil esconder os problemas se não podemos resolvê-los? Sim, é bem mais simples... Mas não deixa de ser duplamente patético. Errar por ação, e não por omissão! Ter medo de fazer alguma coisa, simplesmente pela possibilidade de dar errado é pior do que fazer e errar.

Que bando de besteiras... Parece que estou escrevendo algum livro do Paulo Coelho. Esqueçam esse parágrafo acima, isso é tudo baboseira que poderia ser dita por qualquer macaco treinado. O ser humano não nasceu preparado para aceitar o erro como um cordeirinho. Nós não nos contentamos repetindo o mantra mágico "eu tentei, mas errei". Ao contrário: martelará na sua cabeça, várias e várias vezes "porque eu errei?!". Errou, e errou por sua culpa, só sua! Nossa consciência é nosso pior inimigo: sabe de tudo o que sentimos, é implacável, irônica e não pode ser silenciada. Ou nós a ouvimos, ou nós a calamos... eternamente.

O mundo é isso, amigos. Não há o que mudar, só o que lamentar. Nos cabe a escolha da ignorância, confortável e segura, ou da selva que é lá fora, em que raramente há finais felizes. Não quero repetir outros posts meus, mas há pessoas que não suportam isso, e acabam se anestesiando, seja com amores, com bebidas, com jogos, com comida... Os fracos sempre se escondem através de algo material, em que ele possa materializar a segurança interna que não tem. Eu por exemplo materializo na música, no conhecimento. Mas será que quanto mais se conhece mais se é seguro? Infelizmente afirmo que não... O conhecimento só ampliar os caminhos que eventualmente chegam à insegurança. Não existe caminho que leve ao pote de ouro, no fim do arco-íris. Aliás, no mundo de um conhecimento razoável, nem arco-íris existe. É só um fenômeno óptico...

A letra e a tradução da música dos Beatles segue... Será que o Nowhere Man é mais feliz?





Ser ninguém implica em ser imune a qualquer coisa: bênçãos e maldições.

9.4.06

Não gosto de fotografias

Sou um sujeito estranho mesmo... Estranho não, que é termo muito popular. Sou um sujeito peculiar, excêntrico. Vocês entenderão mais a frente... Algumas tribos indígenas norte-americanas acreditavam que as fotografias tinham o poder de aprisionar seus espíritos, por isso nunca se deixavam ser fotografados.

Nunca fui muito dado a tirar fotos, me sinto desconfortável por fingir algo que posso não estar sentido naquele momento. Se for para dar um sorriso falso, melhor não dar! O fato é que eu fico particularmente triste ao ver fotos, especialmente as fotos de pessoas alegres, juntas. Isso tudo dá um banzo, uma saudade de algo que eu não sei. Mesmo não participando dos momentos ali, é como se tivessem roubado a alegria, a espontaneidade da cena e tivessem imprimido em papel, nas cores frias.

Eu também me pergunto as vezes porque eu penso sobre isso... São coisas tão vagas e desconexas que eu nem sei por onde comecei, mas cá estou. Fico pensando nas pessoas das fotos, sorrindo, alegres. Elas não estão preocupadas com qualquer simbolismo que aquilo represente, querem viver o momento! O tão famoso carpe diem, que saiu da função poética de aproveitar a vida com tudo o que ela tem, para se tornar mote de adolescentes bêbados: "vou beber até cair hoje. Carpe diem!". A vida dessas pessoas, tenho certeza, é mais simples (mas melhores?)...

A reflexão humana é terrível... É algo que não foi feito para ser utilizado pelo homem. Pandora, quando abriu a boceta (é boceta, bolsa pequena, viu mentes poluídas?!) deve ter soltado o demônio da reflexão. Por que digo isso? Vamos lá...

Primeiro viajamos pela própria palavra: reflexão. Ato de refletir. Quem não se lembra das aulas de física óptica, em que um raio sai de uma fonte, atinge um objeto e é refletido por ele?! Pois é... A reflexão humana está justamente nessa "volta": analisamos tudo o que está em nossa volta e essa análise volta pra gente, aí criamos um juízo sobre o que analisamos. Mas não é algo mecânico, essa reflexão envolve inúmeros fatores, como experiências passadas, cultura, moral etc.

Agora chegamos ao ponto que eu queria: a reflexão é o demônio encarnado. Ela é tão perigosa que pessoas bebem, se drogam, se suicidam, matam, comem, ouvem música, fazem de tudo para não refletir por um momento. Deus nos deu um instrumento muito perigoso, e sem nenhum manual de instruções: julgamos todo o mundo pelo que achamos que sabemos, e assumimos isso como verdade. Aquelas meninas da sua faculdade, do seu colégio, que têm o calendário de festas decorado, mas não consegue discutir uma linha sobre a vida são um exemplo clássico do que eu digo: são tão apavoradas por refletir, por tomar juízo de algo, que preferem calar sua consciência com namorados, com compras, com festas. Preferem ouvir música até o último volume, na esperança de conseguir calar a voz interior.

Todo esse preâmbulo foi para dizer: reflitam, mas não reflitam muito... Aos que tem a coragem para tal, um aviso: pensem menos e vivam mais. Refletir é péssimo! Não trás felicidade, não trás alegria, não trás nada além de uma visão muito boa do mundo, mas de cima do Everest, sozinho. Portanto, a menos que você esteja disposto a carregar o fardo de se sentir só, mesmo estando cercado de pessoas, reflita. Mas se você quer sorrir nas fotos, se você quer ter uma casa com cerca branca e uma perua para ir com a família ao restaurante no domingo, vivam suas vidas.

O tempo, maior inimigo do homem... Todos nós tememos não ser lembrados por ninguém. Temos medo de sermos só mais um, alguém que já passou por ali. Você já pensou nisso? Quantas pessoas passaram por onde você está, pela cadeira que você se senta na faculdade, pelo banco do ônibus? Todas com histórias diferentes, com motivos diferentes, podem estar mortas, vivas... O homem não é nada frente a ira de Cronos, o terrível deus-tempo grego que comia seus filhos.

Então criou-se a fotografia... A prova material: estivemos lá, fui até ali. Mera ilusão! Aquilo só representa a angústia de que nunca vamos sentir de novo, da mesma maneira, o que sentimos naquele momento. É um atestado de felicidade: "olha, eu já fui feliz um dia, tá vendo?!".

Queria muito poder sorrir fácil desse jeito... Juro que queria poder estar todo momento feliz. Mas a reflexão me pegou de jeito. Eu vivo aqui, pensando nos problemas alheio, e tal como doença incurável, sei que nunca vou me livrar do fardo. A escolha foi feita no passado, quando não se tem muita experiência, mas dura a vida toda. Tive uma escolha, podia ter optado pelas fotografias. Fui apresentado a dois mundos, há muito tempo atrás, e escolhi o meu. Reflexão... mas com a eternidade de arrependimentos pelo que deixei (e deixo) de fazer.


Fotografias: retratos da vida como ela deveria ser.

4.2.06

Uma vida feliz

Por que a necessidade do ser humano de criar ídolos, de buscar algo em outra pessoa, que não encontra em si mesmo? Beleza, coragem, determinação, fama, inteligência, amor... Tudo o que um ser humano mediano, que vive sua vida medíocre, não tem, reflete-se na obsessão por buscar algum super-herói, alguém que possa fazer por ele.

Sempre tivemos a necessidade da falsa segurança, de que existe algo maior para nós, de que estamos destinados à grandeza eterna, mas isso nem sempre é verdade. O mundo não é justo, e a grandeza não vem para todos. São raros os que têm esses talentos cobiçados por todos, talentos verdadeiros. E os que têm pagam um preço extremamente grande... A genialidade nunca vem de graça!

O homem velho busca na menina nova a juventude perdida, o executivo busca no carro novo a felicidade, a menina busca no homem maduro a experiência, enfim, estamos sempre buscando algo que já deveria estar na gente em outras pessoas ou coisas. Sempre é assim... O vazio interior é erroneamente preenchido com o vazio de outras pessoas, ou com a efemeridade dos bens materiais. Doce ilusão... Se você não for feliz, você mesmo, internamente, não será outra pessoa ou outra coisa que te deixará mais ou menos feliz.

Confunde-se muito satisfação/prazer com felicidade. É claro que comprar aquela Mercedez (meu sonho também) vai gerar uma grande satisfação, um sentimento de completude, de que sua vida está onde deveria estar. Se você conhecer a mulher que, naquele momento, é a mulher da sua vida, você também se sentirá completo, como se tivesse achado sua metade perdida no mundo. Mas será que isso é felicidade ou satisfação?

Felicidade é estado de espírito, é algo duradouro, é algo que só depende de você mesmo, sem nada acessório. É aquela sensação, cada vez mais rara, de acordar e sentir algo por estar vivo, de agradecer alguém por alguma coisa que você não entende muito bem, é um conforto que vai além do físico, é o colchão pra alma...

Satisfação são momentos... São coisas que você faz, sente, vive, e acha que sua vida está ali no auge, que você poderia morrer feliz. Mas, tenho certeza de que você já passou por isso, são momentos muito rápidos, que logo são preenchidos por outros sentimentos, ou esquecidos. Até etimologicamente (etimologicamente aqui significa pela própria palavra, viu seres incautos?!) a palavra diz tudo: satisfeito, aquele que está completo, cheio. O problema é: o que está cheio notadamente tende a esvaziar-se...

Aí é que vem a eterna busca pela felicidade. Projeta-se em seus ídolos a imagem de eterna satisfação, como se eles sempre vivessem de bem com o cosmos, sempre felizes. O truque está aí... A publicidade soube aproveitar isso muito bem também. Já viu alguma propaganda dessas de TV por assinatura, de alguma bugiganga para emagrecer? Com certeza... Então você sabe do que eu vou falar: eles vendem aquele produto como se a sua felicidade dependesse dele. Você está gordo, e só será magro com aquilo, e você só será feliz quando for magro. Portanto, compre essa quinquilharia e seja feliz. Será?

Poderia passar o dia falando de outras associações, as mais bizarras possíveis, que fazem entre produtos e a felicidade. Para você pensar um pouquinho agora: até a Guerra do Iraque é pela felicidade... Essa palavrinha já mudou o curso da história muitas vezes, e muda até hoje.

Como sempre há, o ser humano é fascinado pelo desconhecido, e gosta de explorar o lado negro, a escuridão do que é conhecido. Daí vem nosso gosto pela fofoca, pelas bizarrices do mundo das celebridades. Queremos partilhar nosso suposto sofrimento para os outros, e sentimos um prazer imenso ao ver aqueles ídolos, que parecia ser donos do elixir da felicidade eterna, se transformar em um ser humano comum, acuado e problemático, bem na nossa frente. Gostamos disso... Não queremos ser as únicas vítimas desse mundo cruel e frio.

No amor então, nem se fala... Sempre buscando nós mesmos em outras pessoas. E sempre nos perdendo um pouquinho, cada vez mais. Moldando-nos pelas outras pessoas, pelo que achamos que deveriam pensar de nós. Quando se tem dinheiro, falta-se beleza. Quando se tem beleza, falta-se dinheiro. Quando se tem dinheiro e beleza, falta-se inteligência. Quando se tem inteligência, falta-se humor. Quando se tem inteligência e humor, falta-se objetividade. Quando se tem objetividade, falta-se carinho. Sempre falta alguma coisa nos outros, mas será que nada nos falta? Será que todos os problemas são dos outros? Sempre queremos que se moldem a nossa vontade... Mas será que não deveríamos ser nós, os moldados?

Não vou terminar esse texto com uma conclusão piegas dizendo para nos unir e dar as mãos (mestre Eli!), mas vou terminar com o que eu acho correto: devemos cada vez mais buscar nossa satisfação, buscar o que nos completa, o que nos deixa, por um momento, com a sensação de felicidade. Devemos também buscar a felicidade, buscar nossos sonhos, o que achamos que nos deixaria felizes. Devemos buscar tudo, buscar o mundo, enquanto podemos. O que não podemos esquecer, de maneira nenhuma, é a diferença entre felicidade e satisfação... Devemos ter plena consciência de que a felicidade não está em mais ninguém, além de nós, e que a satisfação é a única coisa boa que você poderá fazer nesse mundo para si próprio. Tudo é uma questão de egoísmo calculado: pensem no que querem para si, pensem no que querem para os outros e veja o que você terá - uma vida satisfeita, ou uma vida feliz.



Felicidade, satisfação? Eu escolho a liberdade...

12.11.05

Free as a bird

Free as a Bird,
It's the next best thing to be free as a bird.
Home, home and dry.
Like a homing bird I fly, as a bird on wings.
Whatever happened to the life that we once knew
Can we really live without each other
Where did we lose the touch
That seemed to mean so much
It always made me feel so
Free as a bird,
It's the next best thing to be free as a bird.
Home, home and dry
Like a homing bird I fly, as bird on wings
Whatever happened to the life that we once knew
Always made me feel soooo
Free

Free as a bird
It's the next best thing to be
Free as a bird
Free as a bird
Free as a bird.


Os Beatles, depois de certo tempo na industriazinha musical, conseguiram transcender isso. Passaram de pop à cult, e mi(s)tificaram toda a sua carreira. O lirismo da letra acima é quase como o banzo dos escravos, da mãe-áfrica, é um apelo por sossego, por lar. Nós não nascemos, e não estamos preparados, para virar heróis. O peso de ser herói e sobre-humano, e por isso criamos esses personagens míticos. Ninguém suporta a responsabilidade de pensar em suas ações por si, e por todas as pessoas que te tem como herói.

O ser humano é mesmo como pássaro, que deveria poder voar pra casa assim que pudesse. Mas afinal, o que é lar? Não será somente um sonho idílico de um lugar, que não este, sempre melhor? Esse lugar, fisicamente, não existe. Quem faz os lares de nossas vidas somos nós, não importa onde estejamos.

E por fim, que venham as mudanças, que venham as ondas revoltas da vida. Espero ter a sinceridade de um (a)recife, que recebe as ondas dias, meses, séculos, sem reclamar, somente se moldando.


Paul, John, George e Ringo: dois já estão livres como pássaros.
Voltem para seus lares, rapazes...

26.5.05

Grande Irmão

Além de tradução literal de "Big Brother", essa frase tem muita coisa nas entrelinhas...

Não, não se refere a nenhum programa de televisão, mas sim a um livro de George Owell, 1984. O livro foi escrito nos anos 40 e mostra uma sociedade global ("Oceania", que não tem nada haver com o continente real) que possui uma espécie de "führer", o "Grande Irmão", que tudo vê, tudo sabe e a todos vigia (e que nunca foi visto pessoalmente por ninguém). A história é de uma genialidade são sublime que quase parece história palpável, algo que aconteceu realmente. O nazismo alemão, em comparação ao IngSoc (partido fascista do livro), é brincadeira de criança. Até os pensamentos contrários (crimidéia) são punidos...

A personagem principal do livro, Winston Smith, é um homem do Minver (Ministério da Verdade), responsável por distorcer todas as notícias em nome do Partido, e em nome do Big Brother.

O incrível é que a união internacional quase profetizada pelo livro está ocorrendo. A direita fascista está de volta com tudo... Basta só um líder carismático, com poder de persuasão, para incendiar o barril de pólvora, e estaremos de volta aos velhos tempos de Guestapos e KGB's... Eu não disse que isso é ruim!

A "sociedade oceânica" não deveria fazer sexo, não deveria ter emoções, não deveria "sentir". E é esse justamente o ponto: algumas pessoas, inclusive Winston, têm saudades das emoções, abolidas pelo Partido. Ao contrário do nazismo, essa é uma ditadura da razão...

Um dos pontos emocionantes é quando Winston lembra-se de como é fazer amor, algo que ele não fazia há três anos... É uma coisa tão simples, mas que quando negada pelo Estado (que loucura!), pareceu a quebra de barreiras.

Segue a música (ouçam!) do grupo Goldfrapp, Utopia, que no meu ver é um grande resumo do livro... ;-)

Play para ouvir "Utopia"


Goldfrapp - Utopia

It’s a strange day
No colours or shapes
No sound in my head
I forget who I am
When I’m with you
There’s no reason
There’s no sense
I’m not supposed to feel
I forget who I am
I forget
Fascist baby
Utopia, utopia
My dog needs new ears
Make his eyes see forever
Make him live like me
Again and again
I’m wired to the world
That’s how I know everything
I’m super brain
That’s how they made me

Tradução
É um dia estranho
Nenhuma cor, nenhuma forma
Nenhum som em minha cabeça
Eu esqueci quem sou
Quando estou com você
Não existe razão
Não existe senso
Eu não deveria sentir
Eu esqueci quem sou
Eu esqueci
Fascismo, baby
Utopia
Meu cachorro precisa de novas orelhas
Faça com que seus olhos vejam para sempre
Faça-o viver como eu
De novo, e de novo
Eu estou conectado ao mundo
É assim que eu sei de tudo
Eu sou um super-cérebro
É assim que eles me fizeram



E lembrem-se: O Grande Irmão está vendo você!

14.5.05

Secretária

Pela primeira vez vou postar a respeito de um filme. Não é filme esquerdista brasileiro, que só fala de pobreza, mas é independente sim (norte-americano). Chama-se Secretária, e já está disponível em qualquer locadora. Um resumo bem sintético do filme segue:

Uma mulher com problemas emocionais sai de uma clínica de recuperação e se vê aos 30 e poucos anos sem emprego, morando com os pais etc. Resolve então tentar a vaga de Secretária em um escritório de advocacia. O conflito do filme (e o mais inteligente) é que enquanto a personalidade da personagem principal é submissa (até no modo de andar), seu patrão é completamente diferente, sádico e dominador.

O que nasce dessa relação, ao contrário do que se pensa ao se ler a sinopse, não é uma relação doentia ou asquerosa, mas sim algo sublime, algo natural. O filme trata todo o lado sexual da história com uma naturalidade desconcertante: imita a vida, onde tudo é permitido, dependendo das pessoas.

Há uma cena, que obviamente não direi qual é, que possui uma carga romântica nunca vista por mim antes. É como se juntassem todos os filmes românticos em um só: me perdoem a palavra, é até inspirador. Quero viver o bastante para ter a oportunidade de fazer o que o patrão fez.

O que quero comentar é a riqueza de sentimentos: quantas pessoas não perderam chances de ouro com alguém, só por preconceito, por medo do que os outros possam achar, por vaidade etc? As vezes se valoriza mais a imagem do parceiro que você quer ter, para os outros o admirarem, do que a própria felicidade. Prefere-se ser infeliz, mas com imagem positiva perante os outros, do que ser feliz consigo mesmo. É como se fosse escolher um vaso pensando no que seu vizinho acharia dele: paradoxo puro.

Coloco-me também na situação do patrão, que quase perde o amor da sua vida por não ter coragem de assumir seus sentimentos: é isso mesmo mulheres, vocês detestam homens complicados, mas eles existem, e são muito mais interessantes e indecifráveis que os "simples" ;-) O patrão simplesmente não consegue assumir perante a Secretária seus gostos, seus medos, suas vontades, e prefere demiti-la a revelá-los.

O pânico da rejeição é algo gravíssimo: assumo aqui, sou um sofredor nato. Acaba-se caindo no jogo descrito acima: não se revela nada a ninguém, por que se presume que ela irá se preocupar mais com a imagem. Cria-se o ciclo vicioso: uns não têm coragem de se assumir (por presumir que não serão aceitos), e outros não se assumem por falta de coragem perante as outras pessoas.

Percebi que o único modo é se encaixar nos estereótipos: não existe a Secretária nem o Patrão no mundo real. Hoje em dia não se revela nada, se esconde. Obedece-se a lei da menor exposição pública: quanto mais "normal", melhor.

Ai quem me desse ter uma Secretária na vida, que pudesse provocar tanto a ponto de quebrar a barreira da rejeição, e fazer com que não aja mais a adolescente preocupação com o coletivo, com o que os outros pensam. Ai quem me dera...




Quem viu o filme sabe que isso aí é a chave de tudo: provocação.
A pergunta do dia é: VOCÊ se deixaria ser provocado???