Do Fingimento
Esses dias reparei em um detalhe que para mim será um divisor de águas em minha vida. E me perdoem o texto voltado somente para mim, mas se faz necessário. Percebi que a diferenciação da vida de uma pessoa está no fingimento. Desenvolvo: enquanto você não sentir natural estar fingindo algo que você não é, você ainda não cresceu o suficiente, meu amigo!
A etimologia de fingir é "modelar na argila, dar forma a qualquer substância plástica, esculpir, dar feição a, reproduzir os traços de, representar, imaginar, fingir, inventar". Ou seja, quando você está fingindo você está criando uma representação de uma coisa irreal em uma coisa real. Você simplesmente transfere a realidade que você queria que existisse, e por isso irreal, a alguma coisa que existe, o seu real modo de ser. O fingir é um ardil tão perfeito por isso: você engana com uma coisa que já existe, só não existe naquele determinado momento.
Nós temos que fingir constantemente uma posição que nos é imposta pela sociedade. Em diferentes níveis de clichê. Você pode ser o gentleman, o Lancelot em pessoa. Para isso basta você engolir qualquer coisa de ruim que te façam, e sair da situação com ar de superior. Isso é fingir... Você finge uma força que não tem para fingir ser uma pessoa melhor do que você é. Enquanto isso se consome por dentro, entre inúmeras dúvidas, amarguras e incertezas. Ou você pode ser o festeiro: aquele cara que leva a vida como uma festa, que tem uma irritante falta de preocupação com tudo, que parecer ter criado um mundo em que o calendário funciona sextas, sábados e domingos. Domingos não... Afinal, tem que haver um dia de descanso, né?! ;-)
O fingimento é tão importante que sem ele nós não conviveríamos. Como você poderia agüentar aquele chato que se senta ao seu lado todos os dias? Como você pode suportá-lo? Você é uma pessoa criada em uma tradicional família cristã, não pode machucar os sentimentos de ninguém! Portanto você liga o piloto automático do ser humano... o fingimento.
"Não há bônus sem ônus". Essa máxima é extraordinária. Do mesmo modo que o fingir leva a um estado letárgico, sendo remédio eficaz para qualquer coisa que não lhe agrade, tem suas contra-indicações e seus efeitos colaterais. Só não há bula... Isso aí você terá que redigir a sua própria, pois existe uma dosagem para cada paciente.
Quem finge em excesso corre o risco de perder a própria identidade, de se perder no meio de tantas versões de si mesmo. Quem finge de menos corre o risco de não viver até entender que finge de menos. Quem finge de menos sofre preconceito, é visto como mau humorado, como ranzinza. Aí está a questão: todos somos ranzinzas! Metade das coisas que gostamos são "gostadas" só para agradar outra pessoa, ou ao menos não contrariá-la. Chega pra você o crítico de arte mais respeitado no país e pergunta "Gosta daquele quadro?". Se você já for grande, tanto vai gostar quanto saber informações detalhadas sobre o pintor. Você será o fingidor prevenido... Aquele que sai de casa com umas 5 versões de si mesmo. Se você for uma pessoa importante (mais importante que o crítico), poderá dizer "Aquele quadro é uma porcaria!". Rapidamente o crítico lhe emendará e falará "Realmente... Farei uma crítica detonando o pintor.". Agora, se você for um Zé Ninguém e disser pro crítico que não gosta, a resposta será "Isso porque você é um idiota...".
Perceberam o fingimento? Não só seu, mas também do crítico, também do cara importante, e também do pintor, que precisa fingir genialidade para se sobressair. O mundo, crianças, é regido pelo FIN-GI-MEN-TO!Para quê magoar alguém se você pode somente fingir? Finja que está tudo bem... Que ele fingirá que está tudo bem. E acaba que o fingimento fica tão real com o tempo, que se torna realidade.
De minha parte faço um manifesto: apoio o fingimento! Sem ele nós não teríamos nos suportado no mesmo mundo por tanto tempo. Nós teríamos nos matado uns aos outros. Torço para, um dia quem sabe, conhecer alguém com que eu não precise fingir nada. Torço para um dia eu saber quem realmente sou. Isso não pode ser feito por você mesmo, isso é uma descoberta, isso é uma experiência social. Quando me descobrir é capaz de nem eu mesmo me agüentar. Aí eu finjo que gosto de mim mesmo, e está tudo bem...

Por trás dessa camada densa de mentiras, ainda deve existir algo de verdadeiro.







